Processo Pedogenético Específico relacionado ao Cálcio
Calcificação ou carbonatação
A calcificação consiste na formação e acumulação de CaCO3 (calcita) ou CaSO4.2H2O (gipsita) no solo. Não obstante, nos solos brasileiros não há registro de acumulação de gipsita, apenas de acumulação de calcita, por isso, esse processo é referido também como carbonatação.
O CaCO3 dissolve facilmente em pedoambientes úmidos, sob a influência da PCO2 relativamente elevada resultante da respiração das raízes e da MO em decomposição (respiração microbiana). Em solos bem drenados, à medida que aumenta a taxa de lixiviação sob climas mais úmidos, a calcita tende a ocorrer em profundidades gradativamente maiores do solo. Entretanto, a profundidade de acumulação da calcita também pode ser decorrente de fatores locais, como o declive alterando o escorrimento superficial (erosão), a permeabilidade do solo e função de paleoclimas. A calcita pode acumular em solos mal drenados, nos quais há Ca2+ e bicarbonato concentrados em água confinada (estagnada).
A calcita pode ser herdada do material de origem dos solos (como calcário), ou pode precipitar da solução do solo na forma de calcita pedogênica, o que requer uma fonte de Ca2+ e CO32-. Os íons Ca2+ podem ser derivados do intemperismo do material de origem, onde as rochas calcárias e outras representam fontes de liberação rápida de Ca para a formação da calcita pedogênica. Os minerais primários (plagioclásios cálcicos, anfibólios, piroxênios, granadas e epídotos, são fontes de liberação mais lenta de Ca2+. A precipitação da calcita pode ser expressa pela reação
Ca2+ + 2HCO3-1 CaCO3 + H2O + CO2
que é influenciada por vários fatores: um aumento do pH direciona a reação para a direita por suprir mais HCO3– por meio de CO2 + OH–. O decréscimo na PCO2, pela perda de CO2 para a atmosfera, também direciona a reação para a direita. A perda de água por evapotranspiração aumenta a concentração iônica da solução do solo ao ponto de exceder o produto de solubilidade da calcita, resultando na sua precipitação.
A precipitação de calcita no solo ocorre preferencialmente próximo às raízes, onde microrganismos são abundantes e, em poros grandes, onde o secamento é relativamente rápido e a PCO2 é menos que na matriz por haver troca mais efetiva com a atmosfera.
Os processos de precipitação da calcita são diferentes nos solos bem drenados, visto que nestes ocorre um fluxo descente de água e o Ca provém do intemperismo ou de outras fontes. A decomposição da MO no horizonte A produz alta PCO2 que mantem uma concentração relativamente elevada de CO2 dissolvido na solução do solo, produzindo HCO3–. Os íons Ca2+ e HCO3– são lixiviados pela água até a profundidade onde a calcita precipita. Esta profundidade é determinada pelo decréscimo da PCO2 abaixo da zona de maior atividade biológica, bem como pelo aumento na concentração da solução do solo ao adentrar o subsolo seco ou ser esgotada pela evapotranspiração.
Por outro lado, em solos mal drenados domina o fluxo ascendente da água devido à evapotranspiração predominante na superfície. Já no subsolo, por haver maior conteúdo de água em relação à superfície, há redução da difusão de CO2 para a atmosfera, resultando em maio PCO2 (que decresce quanto mais próximo for da superfície do solo). Os íons Ca2+ e HCO3–, provenientes da água subterrânea ou do solo, são movidos com o fluxo ascendente da água, resultando na precipitação da calcita na zona superior do solo onde a PCO2 é menor e a solução do solo é mais concentrada devido à evaporação.
Em solos de textura fina, a calcita precipita primeiro como filamentos em canais de raízes e depois como massas macias. Eventualmente, forma-se um horizonte cimentado por calcita (horizonte petrocálcico) onde o carbonato preenche quase todos os poros. Esses horizontes petrocálcicos formam uma barreira para a penetração das raízes.
Horizontes pedogênicos com presença de carbonatos e acumulação de CaCO3 secundário são identificados por k e k’, respectivamente (Ex.: Bk, Bk’, Ck, Ck’). Uma acumulação de CaCO3 secundário ≥ 15%, com espessura ≥ 15 cm, na forma de carbonatos de consistência macia e, ou concreções endurecidas, caracteriza o horizonte cálcico (horizonte diagnóstico). Quando o horizonte é contínuo e cimentado em espessura > 10 cm é classificado como horizonte petrocálcico.
Referências
Kampf, N; Curi, N. VII – Formação e evolução do solo (Pedogênese). In: Ker, JC; Curi, N; Schaefer, CEGR; Vidal-Torrado, P (eds). Pedologia: fundamentos. Viçosa: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2012. p. 207-302.
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