Processos pedogenéticos específicos relacionados ao silício
Há dois processos pedogenéticos específicos que envolvem o elemento silício nos solos brasileiros. Estes processos são conhecidos como silicificação e dessilicação, como veremos a seguir.
Silicificação
O processo de silicificação consiste no acúmulo de sílica (SiO2) secundária no solo. A acumulação de sílica solúvel no solo pode favorecer o desenvolvimento de duripãs, que são camadas cimentadas por sílica, cujos fragmentos não esboroam quando agitados com água.
O Si liberado pelo intemperismo de minerais silicatados pode precipitar como opala-A (SiO2.nH2O). Em solução, o Si ocorre como ácido silícico (H4SiO4), que se movimenta no solo com as águas de percolação e sua precipitação é favorecida em soluções com força iônica elevada, mas é adsorvido preferencialmente em grupos hidroxila expostos em argilominerais, óxidos de Fe e de Al e em silicatos primários.
Camadas do solo com alta área de superfície específica, tais como horizontes mais argilosos, ou com elevada força iônica (ex. horizonte cálcico) favorecem a rápida adsorção de Si, que é maior em pH de 7 a 9. O eventual secamento desidrata o H4SiO4 adsorvido causando a precipitação de sílica amorfa na superfície das partículas minerais. A forte ligação Si-O inibe a reidratação e a dessorção do precipitado, que atua como um sítio para as precipitações posteriores, resultando eventualmente na formação de pontes de sílica entre os grãos minerais.
Em solos com textura grosseira, uma concentração muito baixa de sílica (~4%) já é suficiente para cimentação da matriz do solo por meio de pontes de sílica entre os grãos. O horizonte integralmente cimentado por sílica é identificado como duripã (não esboroa em água ou HCl), que apresenta com frequência agentes cimentantes acessórios, tais como óxidos de Fe ou calcita. A baixa permeabilidade do duripã induz a acumulação de nódulos de Fe e Mn e de argila iluvial no topo desta camada. Uma cimentação mais fraca por sílica ocorre nos fragipãs, que mostra alta densidade e cimentação aparente quando secos, mas esboroam em água.
A formação dos fragipãs tem causas variadas: (1) a compactação por contração e expansão dos argilominerais, associada com o preenchimento de fendas; (2) a translocação de argilas que preenche os poros e o arranjo de partículas de silte entre agregados, aumentando a densidade do solo; (3) a pressão das camadas saturadas sobrejacentes, produzindo adensamento; e (4) a cimentação fraca por silicatos amorfos acumulados.
A presença de fragipã ou duripã no perfil do solo diminui a penetração das raízes e a condutividade hidráulica.
Dessilicação
O processo de remoção do silício inicia com intemperismo dos minerais primários no material de origem (rocha). Esse processo continua durante a formação do solo como o processo pedogenético chamado de dessilicação, atuando sobre minerais primários e secundários.
A dessilicação consiste na remoção de Si liberado durante a alteração e/ou transformação dos minerais. Geralmente, ocorre associado a vários outros processos pedogenéticos específicos (PPEs), tais como ferralitização e ferrólise.
A dessilicação pode apresentar vários estádios ou graus de remoção de Si, o que reflete diretamente na composição mineralógica do solo. Quando ocorre em solos bem drenados e ácidos, sujeitos à dessilicação parcial (fersialitização), os argilominerias 2:1 (esmectitas e vermiculitas) tendem a ser intercalados com Al, originando esmectitas com hidróxi-entrecamadas (EHEs) e vermiculitas com hidróxi-entrecamadas (VHEs), ou tendem a desaparecer completamente. Sob dessilicação mais avançada, ou seja, mediante maior remoção da sílica, os aluminossilicatos primários e os argilominerais 2:1 são transformados em argilominerais 1:1, tais como a caulinita (Al2Si2O5(OH)4). Sob lixiviação extrema, comum na ferralitização, a dessilicação intensa (dessilicação total) origina gibbsita (Al(OH)3). Em todos os estádios de dessilicação também são formados óxidos de ferro.
O processo de dessilicação do solo e consequente concentração de óxidos de Fe e de Al pode desencadear ainda três outros processos: a ferralitização, a plintização e a laterização, os quais requerem ambientes distintos, podendo compor diferentes estratos em um mesmo perfil do solo.
Referências
Kampf, N; Curi, N. VII – Formação e evolução do solo (Pedogênese). In: Ker, JC; Curi, N; Schaefer, CEGR; Vidal-Torrado, P (eds). Pedologia: fundamentos. Viçosa: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2012. p. 207-302.
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